terça-feira, 27 de julho de 2010

A OBRA AINDA NÃO SE COMPLETOU (Ricardo Barbosa)

A OBRA AINDA NÃO SE COMPLETOU

Certa vez, vi um adesivo no vidro traseiro de um carro com estes dizeres: "Paciência, Deus ainda não terminou sua obra em mim". Não me lembro se estava ou não irritado no trânsito naquele dia. Possivelmente estava, porque aqueles dizeres chamaram minha atenção e me fizeram ver o quanto minha impaciência para com o ser humano é desproporcional à paciência que espero que tenham para comigo. Mas, sobretudo, o adesivo chamou minha atenção para o processo lento e paciente com que Deus lida com nossas limitações e ambigüidades.

Deus, pacientemente, nos salva, redime e transforma. É um processo lento. Envolve nossas resistências, defesas, medos e incertezas. Queremos crescer, amadurecer, mas temos medo de dar um passo em direção àquilo que não conhecemos, de nos entregarmos nas mãos de Deus sem saber exatamente o que pretende fazer de nós. Tememos renunciar àquilo que nos parece tão seguro e confortável - como os hebreus que, diante dos riscos do novo, desejaram voltar para o Egito. A escravidão é mais segura do que a liberdade. No entanto, Deus segue pacientemente nos conduzindo para a terra da promessa, nos levantando quando caímos, dando força quando nosso vigor acaba, nos corrigindo quando erramos e tratando de nossas feridas quando nos machucamos.

Mas nós somos impacientes. Não suportamos as falhas, cobramos eficiência, criticamos a incompetência e condenamos o erro. O crescimento do outro, para nós, pouco importa. O processo lento e complexo do amadurecimento humano não nos interessa. Somos excessivamente pragmáticos e funcionais em nossos relacionamentos. Precisamos da paciência de Deus e dos outros, mas somos intolerantes. Este descompasso entre a paciência divina e nossa impaciência nos torna pessoas desatenciosas para com aquilo que a graça de Deus está construindo na vida do próximo e na nossa. A vida não é constituída de saltos, mas de passos, na maioria das vezes vagarosos.

A impaciência tem destruído famílias e comunidades, impedido que cônjuges, pais, filhos, irmãos e irmãs vejam aquilo que Deus está fazendo pacientemente na vida do outro. Somos pais impacientes com os filhos, com seus conflitos, sua demora em aprender, suas perguntas embaraçosas, seus gostos duvidosos, seus desejos confusos e hábitos atrapalhados. Somos impacientes com o cônjuge, com suas crises emocionais, frustração profissional, imaturidade espiritual e incapacidade de ser atencioso. Também somos impacientes com nossos pais, com sua dificuldade de compreender, aceitar, ouvir e mudar. E somos impacientes com nossos irmãos e irmãs em sua caminhada de fé, quanto às diferenças teológicas e ideológicas, nas crises existenciais e nos conflitos relacionais.

Se olharmos para a história dos nossos filhos, cônjuge, pais e amigos, vamos perceber que ao longo dos anos vividos houve mudanças, crescimento e transformações; mas num dado momento, ignoramos tudo e somos tomados por uma pressa suicida. Conheço alguns casais que, anos depois de uma separação trágica, reconhecem que se tivessem tido um pouco de paciência, um pouco mais de atenção e cuidado, teriam superado as dificuldades do momento e estariam hoje provando de um relacionamento saudável, maduro e bonito. No entanto, a pressa, a afoiteza egoísta e desumana, fizeram precipitar uma história, abortar um processo e destruir uma esperança.

A maioria dos nossos juízos são prematuros. Nossas avaliações não conseguem ir além de uma visão simplista e temporal. Com facilidade, colocamo-nos como modelo e paradigma sobre a vida dos outros e os classificamos a partir dos critérios que definimos para nós mesmos. Somos cegos para as particularidades e singularidades de cada um. Como resultado de tudo isso, tornamo-nos imediatistas e exigentes, ignorando a natureza única de cada pessoa e o que Deus está fazendo, pacientemente, na vida e na história daqueles que amamos.

Como pastor, em minha limitada experiência, se pudesse traduzir a angústia e aflição de adolescentes, jovens, cônjuges e amigos com quem tenho convivido e escutado em todos estes anos, diria que o que mais desejam é alguém que os ame de forma que sejam compreendidos. De alguém que lhes dê atenção, que pare para ouvir suas histórias, que se preocupe com eles, e não em defender idéias, conceitos e instituições. Alguém que lhes estenda a mão quando caírem, que não os condene precipitadamente e que os trate com humanidade e dignidade.

Paciência é uma virtude divina, um fruto do Espírito absolutamente indispensável na experiência espiritual pessoal e comunitária. É ela que nos possibilita caminhar sem sobressaltos, provar a graça de Deus sem o medo tão comum da rejeição e exclusão. Precisamos dela em nossas famílias e igrejas, principalmente num tempo em que a pressa, a impessoalidade e a cultura do descartável são tão intensas e desumanas. É por isso que Paulo, escrevendo aos filipenses, afirma: "Aquele que começou a boa obra em vós, há de completá-la até o dia de Cristo Jesus". A ação de Deus sobre nossas vidas é pessoal e tem um percurso próprio. Cabe a nós, corpo de Cristo, acolher com paciência uns aos outros e deixar Deus completar a sua obra.

"Paciência! Deus ainda não terminou sua obra em mim". Talvez seria bom colocarmos um adesivo destes em cada um de nós. Seria bom que os pais fossem lembrados disto toda vez que a atitude e reação dos seus filhos não corresponderem àquilo que esperam deles. Que os cônjuges também reconhecessem isto toda vez que o marido ou esposa não correspondessem à expectativa . Que a igreja levasse isto bem a sério, toda vez que olhasse para o lado e visse no outro uma obra inacabada. Que considerasse esta realidade na vida dos seus líderes e pastores. Sejamos pacientes: Deus, com sua infinita misericórdia, continua trabalhando em nós.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Não mude sua natureza se alguém te faz algum mal

Um mestre do Oriente viu quando um escorpião estava se afogando e decidiu tirá-lo da água, mas quando o fez, o escorpião o picou. Pela reação de dor, o mestre o soltou e o animal caiu de novo na água e estava se afogando. O mestre tentou tirá-lo novamente e outra vez o animal o picou. Alguém que estava observando se aproximou do mestre e lhe disse:
-Desculpe-me mas você é teimoso! Não entende que todas as vezes que tentar tirá-lo da água ele irá picá-lo? O mestre respondeu:
-A natureza do escorpião é picar, e isto não vai mudar a minha, que é ajudar.

Então, com a ajuda de uma folha, o mestre tirou o escorpião da água e salvou sua vida, e continuou:

-Não mude sua natureza se alguém te faz algum mal; apenas tome precauções. Alguns perseguem a felicidade, outros a criam. Quando a vida te apresentar mil razões para chorar, mostre- lhe que tens mil e uma razões pelas quais sorrir. Preocupe-se mais com sua consciência do que com sua reputação. Porque sua consciência é o que você é, e sua reputação é o que os outros pensam de você.
E o que os outros pensam… é problema deles.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A INVERSÃO DA CONVERSÃO (Ricardo Barbosa)

Os Guinness, um dos profetas da modernidade, escreveu no início da década de oitenta um artigo intitulado Cuidado com a jibóia. Neste artigo, ele comenta os perigos e desafios da modernidade para a fé cristã, e compara estes perigos ao abraço da jibóia que mata suas vítimas estrangulando-as devagar, sem nenhuma pressa. Para ele, a modernidade vem fazendo com o cristianismo aquilo que Nero, Dioclesiano e outros tentaram fazer através da violência e perseguição e não conseguiram. A modernidade vem lentamente estrangulando a fé e o espírito cristão sem que a cristandade se dê conta do abraço da jibóia e apresente qualquer resistência.

Um dos fenômenos modernos que vem me chamando a atenção é o do velho tema da conversão. No passado, a experiência da conversão era caracterizado por uma reforma radical da vida. O convertido era alguém que renunciava o pecado, o mundo e a carne para viver para Cristo, obedecendo a sua Palavra, buscando fazer a sua vontade, negando a si mesmo e se afirmando pela fé em Cristo. Éramos convertidos a Cristo. Na linguagem de Isaías, esta conversão envolvia uma transformação dos nossos caminhos e pensamentos, levando-nos a considerar como superiores e melhores os caminhos e os pensamentos de Deus.

A modernidade vem lentamente mudando este conceito. Eu diria que hoje, o fenômeno mais comum que observo em muitos testemunhos cristãos, não é mais o de nossa conversão a Cristo mas a conversão de Cristo a nós. Digo isto porque o que normalmente ouvimos, nos relatos das experiências de muitos cristãos modernos, são histórias das ações de Deus em suas vidas resolvendo seus problemas, curando suas enfermidades, livrando-os do mal e dos perigos, abrindo portas para novas oportunidades, abençoando seus planos e projetos. Obviamente isto não tem nada de mais, é a expressão mais legítima da presença cuidadosa de Deus em nossas vidas. No entanto, quando tornamo-nos o centro das ações de Deus e julgamos que sua existência só é justificada pelos benefícios que recebemos dele, invertemos a ordem da conversão e, ao invés de sermos convertidos a Cristo, é ele quem se converte a nós, transformando-se numa espécie de "grande mágico" ocupado em tornar nossa vida melhor e mais agradável.

Por outro lado, me chama também a atenção a ausência cada vez maior de testemunhos que expressem as mudanças e transformações da vida e do caráter, que demonstrem a disposição do coração e da alma humana em se deixar moldar pela natureza divina, testemunhos que apontem para uma conversão de nós a Cristo. Somos pecadores, a queda maculou a imagem de Deus em nós, nosso caráter foi corrompido e nos tornamos, por natureza, "filhos da desobediência", rebeldes e egoístas, sem um referencial externo que nos apontasse o caminho de volta para Deus e para a reconstrução da "Imago Dei".

Jesus Cristo, o varão perfeito, o Filho do homem, que manifestou através da encarnação a mais plena e completa humanidade, viveu entre nós para ser o caminho que nos leva de volta ao propósito do Criador, o referencial que precisamos. A conversão, ou numa expressão mais comum entre nós, o "aceitar a Cristo", significa permitir que a vida de Cristo seja agora, pelo poder do seu Espírito, vivida por nós, convertendo-nos e transformando-nos em criaturas novas a fim de afirmarmos como o apóstolo Paulo: "Não mais eu, mas Cristo vive em mim".

Esta afirmação não significa que Paulo havia perdido sua identidade própria, passando a ser uma espécie de marionete ou "zumbi" religioso. O que ele afirma é que foi convertido a Cristo, sua vida foi transformada por Cristo, seus desejos, emoções e vontade, foram e estavam sendo reordenados aos propósitos do Criador. Paulo não estava preocupado se Cristo iria atender todas as demandas de sua vida e ministério, satisfazer suas necessidades ou atender suas exigências pessoais. Paulo estava interessado naquilo que Cristo estava fazendo em sua vida, nas mudanças que o Evangelho havia realizado em seu coração e alma. Paulo mantinha seu olhar sempre fixo em Cristo, deixando para trás tudo aquilo que o mantinha preso no seu passado para experimentar, dia após dia, o poder da ressurreição que fazia dele um novo homem.

A conversão de Cristo a nós é perigosa. É uma inversão que nos coloca numa situação de enorme risco. No salmo 106 há uma advertência contra isto. O povo de Israel foi grandemente abençoado por Deus que os libertou do Egito e dos seus opressores. No entanto, logo se esqueceram de tudo o que Deus lhes havia feito e se entregaram a suas paixões, fazendo o que desejavam. Em meio a esta busca de sua própria realização, lutando pelo seu "direito de ser feliz", fizeram suas orações pedindo para que Deus abençoasse seus desejos desordenados e seus caminhos falsos. Diante disto, o salmista afirma que "Deus lhes concedeu o que pediram, mas fez definhar-lhes a alma". As conseqüências de uma conversão de Cristo a nós podem nos levar ao abismo mais profundo do egoísmo humano e nos afastar da vida liberta e verdadeiramente humana que Cristo nos oferece.

A conversão nunca é o processo de transformar Cristo numa espécie de "gênio da lâmpada", que existe apenas para atender nossas demandas e necessidades. Este caminho inverso pode parecer fascinante, nos dá a sensação de ter à nossa disposição alguém forte e poderoso para nos defender, atender aos nossos interesses, satisfazer nossos desejos e alimentar nosso ego insatisfeito e frustrado. Não nego o amor de Deus e seu desejo enorme de nos abençoar, mas o caminho da conversão continua sendo o da nossa transformação em Cristo, da reconciliação com Deus, da renúncia ao pecado, da sujeição ao senhorio de Cristo, da obediência à sua Palavra e da santidade do caráter. É a transformação da nossa natureza caída na imagem de Deus, é ser cada dia mais parecido com Jesus.

A advertência de Os Guinness é real. A jibóia está aí estrangulando os cristãos, lenta e silenciosamente. A busca pela auto-realização, o narcisismo religioso, a sedução da propaganda, têm invertido o conceito da experiência mais primária da fé cristã. Se começamos pelo caminho inverso, correremos o risco de ver nossa alma definhada. Cuidado com a jibóia!

sábado, 17 de julho de 2010

2ª carta de Carta de Manoel da Conceição ao Companheiro Presidente Lula

2ª carta de Carta de Manoel da Conceição ao Companheiro Presidente Lula
C/C para:
Sr. José Eduardo Dutra – Presidente Nacional do PT
Sra. Dilma Roulsseff – Pré Candidata do PT à Presidência da República
Executiva Nacional do PT
Diretório Nacional do PT

Nobre companheiro presidente Lula,
É com a ternura, o carinho e o amor de um irmão, a confiança, o respeito e o compromisso de um companheiro de classe, das organizações e lutas históricas dos trabalhadores e das trabalhadoras desse país e do mundo que me sinto com a liberdade e o direito de lhe enviar esta 2ª carta, tratando de questões que compreendo ter muito a ver com a responsabilidade do companheiro tanto como agente político das lutas em prol da justiça social para a classe trabalhadora como também na qualidade de um primeiro presidente da república legitimamente forjado nas organizações e lutas desse povo excluído, sofrido, mas que é capaz de realizar o impossível enquanto força social e política organizada e consciente do seu projeto de libertação classista.
Dirijo-me ao companheiro com a minha identidade de trabalhador rural, de sindicalista, de ambientalista, de humanista e de militante e fundador do Partido dos Trabalhadores, o qual comecei a sonhar e trabalhar na sua criação quando ainda me encontrava no exílio, juntamente com honrados e honradas companheiros e companheiras que havíamos sido banidos do nosso país pela intolerância de um governo totalitário e de regime militar.
Porém, minha identidade social, política e classista se origina bem antes da criação do PT e da CUT, instrumentos classistas dos quais me orgulho de ter sido co-fundador, juntamente com o companheiro e um conjunto de honrado(a)s e legítimo(a)s militantes e intelectuais orgânicos da classe trabalhadora.
Na realidade companheiro Lula minha história de luta social e política se originou aqui mesmo no Maranhão, estado do qual sou filho natural com minha matriz étnica negra e indígena.
Agora em julho de 2010 completarei 75 anos de idade. Quando eu era ainda jovem vi meu pai e muitas famílias agricultoras serem massacradas e enxotadas de suas posses por latifundiários, coronéis e jagunços, acobertados e protegidos por um governo oligárquico. Certa vez presenciei um grande massacre de companheiros meus quando estávamos reunidos em uma pequena comunidade rural do interior do Maranhão. Neste dia fomos atacados de forma covarde por um grupo de soldados e jagunços, que sem a menor chance de defesa assassinaram 5 pessoas, dentre elas uma criança que correu prá abraçar o pai caído no chão e foi pego pelas pernas e arremessado contra a parede que a cabeça abriu espalhando os seus miolos, também uma velhinha, que tentou impedir a morte do filho foi cravada de punhal em suas costas, ficando rodando no chão espetada. Eu escapei por puro milagre com um tiro na perna, mas me tornei mais revoltado ainda com a classe latifundiária e jurei perante a comunidade a lutar o resto de minha vida contra os latifundiários e suas injustiças.
Presenciei um segundo massacre em 1959 quando estávamos novamente reunidos em uma comunidade por nome Pirapemas para preparar a defesa de uns companheiros que estavam sendo acusados de ter invadido uma propriedade e roubado umas frutas do sítio. Neste dia chegou um grupo de uns 20 policiais, soldados, tenente, cabos e um sargento. Ao chegarem ao local da reunião o sargento perguntou quem era o presidente da associação, e como foi respondido que não havia presidente o sargento falou: pois então todos são presidentes e vão levar bala. Neste dia foram assassinados sete companheiros e três outros ficaram gravemente feridos.
Minha primeira motivação para a luta era sustentada em pura revolta, ódio dos exploradores da minha família e das famílias camponesas da mesma região que habitávamos. Sem a menor consciência política e dominado pelo ódio eu cheguei a acreditar que a libertação dos trabalhadores de tal estado de sujeição dependeria de um salvador da pátria, de um homem corajoso, de um herói que com o apoio eleitoral dos oprimidos iria por fim a tal dominação. A partir desse entendimento extremamente limitado e de um profundo sentimento de revolta pela violência testemunhada e sofrida, vi surgir na minha ingenuidade uma esperança para salvar a massa camponesa do jugo dos latifundiários apadrinhados pelo poder da oligarquia viturinista que comandava o estado do Maranhão. O nome dessa esperança era José Sarney.
Com um discurso muito bem elaborado e com a radicalidade de um revolucionário Sarney prometia exatamente o que nós camponeses queríamos ouvir: um Maranhão novo e livre de oligarquia, reforma agrária, punição dos crimes cometidos contra as famílias camponesas e indenização dos prejuízos a elas causados pelo gado dos fazendeiros. Eu acreditei no discurso do cidadão e me tornei um aguerrido cabo eleitoral, andando a cavalo em todas as comunidades da região fazendo sua campanha. Resultado, com uma grande adesão popular, elegemos o José Sarney em 1965 para ser o governador do Maranhão. Nessa época eu já era presidente do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Pindaré Mirim, que congregava trabalhadores rurais de toda a grande região do Pindaré. Mesmo sem ainda ter uma sólida consciência de classe eu já havia sido preso e espancado severamente pela polícia da ditadura militar. Foi por conta dessa perseguição que eu passei a acreditar nas promessas do Sarney que caso fosse eleito iria ser uma força aliada dos trabalhadores contra a repressão da ditadura militar.
No dia 13 de julho de 1968 o Sindicato de Trabalhadores Rurais de Pindaré Mirim havia convocado uma reunião da categoria para receber a visita de um médico para tratar questões relacionadas à saúde dos associados e associadas. O Prefeito do município na época mandou informar que iria fazer uma visita ao sindicato neste mesmo dia. Por volta das 10 horas da manhã chegou um pessoal dizendo que queria falar com o presidente do sindicato. Quando eu apontei na porta fui recebido por tiro de fuzil que estraçalhou minha perna. A ação e os disparos foram efetuados pela polícia militar. Outros companheiros também foram atingidos por bala, mas felizmente não houve morte. Eu fui levado aprisionado e jogado na cadeia sem receber nenhum tratamento no ferimento, o que levou minha perna a gangrenar e ter que ser amputada.Sarney se encontrava em viagem para o Japão e quando retornou manifestou desconhecimento da questão e mandou seus assessores manter contato comigo, oferecendo apoio para a minha família, uma perna mecânica, uma casa e outras ofertas, desde que eu me tornasse um defensor do seu governo. Eu respondi que não estava preso por ser bandido, que minha perna tinha sido arrancada por bala da própria polícia militar do estado sob seu governo. Portanto, minha perna era responsabilidade da classe que eu representava, minha perna era a minha classe. Desde então eu passei a ser considerado um inimigo do Estado militar, passando a ser alvo de permanente perseguição. Fui preso 9 vezes e submetido às piores torturas que um ser humano é capaz de suportar. Vi muitos de meus companheiros e companheiras serem torturados e morto(a)s por ordem do governo militar do qual Sarney se tornou parte num primeiro momento como governador do Maranhão e posteriormente como Senador Biônico. Vale ressaltar que foi no primeiro governo da nascente oligarquia Sarney, que foi promulgada a Lei Estadual 2.979, regulamentada pelo Decreto 4.028 de 28 de novembro de 1969, a qual facultava a venda de terras devolutas sem licitação a grupos organizados em sociedade anônima. Essa lei foi o maior instrumento de legalização da grilagem das terras do Maranhão, particularmente na região do Pindaré (ASSELIN, 1982, p. 129). Essa grilagem promoveu a expulsão das famílias agricultoras de suas posses e a migração de milhares de famílias camponesas maranhenses para outros estados.
Eu escapei com vida, embora mutilado e com seqüelas físicas e psicológicas profundas, por conta da solidariedade da anistia internacional, das igrejas católicas e evangélicas, da AP como principal mobilizadora dos apoios e até do Partido Comunista do Brasil que na ocasião fez uma ampla campanha internacional pela preservação da minha vida.
Finalmente, fui exilado na Suiça de onde continuei denunciando as atrocidades da ditadura militar nas oportunidades que tive de viajar por vários países europeus. Foi também no exílio juntamente com companheiros refugiados que começamos a discutir a idéia já em discussão no Brasil de criação do Partido dos Trabalhadores e também de uma central sindical.
Meu companheiro Lula, hoje vivemos um novo momento na história do Brasil; aquelas lutas dos anos 50, 60, 70, 80 e 90 não foram em vão; tivemos prejuízos enormes, pois muitas vidas foram ceifadas pela virulência dos detentores do poder do capital; porém, temos um saldo expressivo de vitórias; hoje temos um partido que se tornou a maior expressão política da classe trabalhadora na América Latina; temos o melhor presidente da história desse gigantesco país, que ironicamente é um trabalhador operário e nordestino, que assim como eu quase não teve acesso a estudos escolares. Eu confesso a você que sinto um imenso orgulho de ter participado desde os primeiros momentos da construção dessa grandiosa e ousada empreitada. Porém, companheiro presidente, ultimamente eu tenho vivido as maiores angustias que um homem com minha trajetória de vida é capaz de imaginar e suportar. Receber a imposição de uma tese defendida pela Direção Nacional do meu partido e até onde me foi informado pelo próprio companheiro presidente de que o nosso projeto político e social passa agora pelo fortalecimento da hegemonia da oligarquia sarneysta no Maranhão. Eu sei do malabarismo que o companheiro presidente tem precisado fazer para garantir alguma condição de governabilidade, porém, sei do alto custo que é cobrado por esses apoios conjunturais, e que nosso governo vem pagando a todos esses ônus. Companheiro, tudo precisa ter algum limite e tal limite é a nossa dignidade. O que está sendo imposto a nós petistas do Maranhão extrapola todos os limites da tolerância e fere de morte a nossa honra e a nossa história. Eu pessoalmente, há mais de 50 anos venho travando uma luta contra os poderes oligárquicos e contra os exploradores da classe trabalhadora neste país. Por conta disso perdi dezenas de companheiros e companheiras que foram barbaramente trucidados por essas forças reacionárias. Como que agora meus próprios companheiros de partido querem me obrigar a fazer a defesa dessas figuras que me torturaram e mataram meus mais fieis companheiros e companheiras. Vocês podem ter certeza que essa é a pior de todas as torturas que se pode impor a um homem. Uma tortura que parte dos próprios companheiros que ajudamos a fortalecer e projetar como nossos representantes no partido e na esfera de poder do Estado, na perspectiva de um projeto estratégico da classe trabalhadora. Estou falando do fundo de minha alma em honra à minha história e à de meus companheiros e companheiras que foram assassinadas pelas forças oligárquicas e de extrema direita neste país.
Estou animado para fazer a campanha da companheira Dilma, assim como para fazer uma aguerrida campanha política em prol do fortalecimento do PT no Maranhão e para construir um projeto político alternativo à oligarquia sarneysta, juntamente com os partido do campo democrático e popular na Coligação PT, PCdoB e PSB. Esta foi a tática vitoriosa em nosso encontro estadual realizado nos dias 26 e 27 de março, que aprovou por maioria de votos, da forma mais transparente possível e cumprindo todos os preceitos legais o nome do companheiro Flávio Dino para candidato dessa aliança legitimamente de esquerda e respaldada pelas mais expressivas organizações da classe trabalhadora deste estado que publicamente se manifestaram, a exemplo da Federação dos Trabalhadores na Agricultura – FETAEMA e a CUT. Assim, penso que estamos sendo coerentes com a nossa história e identidade classista. Portanto, estou fazendo este apelo ao mais ilustre companheiro de partido e confessando em alto e bom som que não aceitarei sob nenhuma hipótese a tese de que nestas alturas de minha vida eu tenha que negar minha identidade e desonrar a memória de meus companheiros e companheiras que foram caçados e exterminados pela oligarquia e os detentores do capital no Maranhão, no Brasil e mundo inteiro.
Lamento e peço desculpas se este meu posicionamento desagrada o companheiro e a Direção Nacional do PT, mas não posso me omitir diante de uma tese destruidora de nossa identidade coletiva e que representa a negação de tudo que temos afirmado nas nossas palavras e ações. Espero poder contar com a solidariedade e compreensão do meu histórico companheiro de utopias e lutas.
Atenciosamente,
Manoel da Conceição Santos - Membro Fundador do PT e primeiro Secretário Agrário Nacional
Imperatriz - MA, 03 de junho 2010

domingo, 11 de julho de 2010

A CRUZ E A AUTO-ESTIMA

Uma das grandes contribuições do cristianismo é a valorização da pessoa. Uma vez que Deus nos amou a ponto de mandar seu Filho para morrer por nós e, por meio dele, nos adotou como filhos e filhas amados, livrando-nos da escravidão do pecado e restaurando a dignidade da criação, somos levados a reconhecer que ninguém nos ama e valoriza mais do que Deus. Esta verdade, além de nos salvar, nos faz sentir bem e nos leva a dar valor a nós mesmos e a reconhecer o valor e dignidade do outro. A partir dela, podemos também concluir que ninguém se interessa mais pelo nosso bem estar, felicidade e realização do que Deus.

O Evangelho é o ponto de partida para a afirmação da pessoa. É a revelação do Deus que nos conhece como ninguém jamais nos conheceu e nos ama como ninguém jamais nos amou. Não há auto-estima real e verdadeira que não leve em conta esta verdade bíblica. A bem da verdade, teologicamente falando, não existe uma auto-estima, alguém que se ama o suficiente para sentir-se plenamente realizado. O amor é um dom. Aprendemos a amar porque fomos amados primeiro. Todo amor tem sua fonte e origem em Deus. Não é difícil, portanto, concluir que a estima que temos por nós é fruto do imensurável amor com que Deus nos tem amado.

Um elemento fundamental na compreensão cristã da auto-estima é o lugar que a cruz de Cristo ocupa na revelação. É ela que nos revela a exuberância do amor de Deus, que nos afirma e reconhece ao mesmo tempo em que desmascara o pecado e nos convida a negar a nós mesmos e a renunciar tudo quanto temos para seguir a Cristo. A cruz levanta o grande dilema sobre o significado moderno da auto-estima porque questiona todo modelo que nega a realidade do pecado, a necessidade de reconciliação com Deus e a plenitude da vida que emerge da redenção.

A partir da cruz entendemos que a busca humana por uma estima real e verdadeira deve levar em conta dois movimentos: a afirmação e a negação. A cruz nos afirma porque reconhece nosso valor diante de Deus. Ela é a expressão maior do cuidado e da preocupação divina por nós. A cruz nos revela uma qualidade de amor, perdão e aceitação que nos dignifica e enobrece. Por outro lado, ela nos conduz à negação. Revela nosso pecado e culpa, desmascara a falsidade e a mentira e mostra nossa alienação para com Deus e o próximo. Estes dois movimentos são fundamentais para a construção de uma compreensão verdadeira sobre nós mesmos. Aqueles que só buscam a afirmação tornam-se egoístas e auto-suficientes, e aqueles que negam tudo perdem sua dignidade.

O apóstolo Paulo, escrevendo aos filipenses, nos dá um testemunho da auto-estima a partir da vida redimida. Ele afirma: "Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece". A auto-estima cristã nunca é baseada na carreira profissional bem sucedida, na nobreza da herança familiar ou num estado de espírito positivo. Antes, ela é baseada somente e totalmente naquilo que Deus fez em Cristo por nós; é algo que Deus realiza por nós e não aquilo que tentamos conquistar sem ele.

A partir da cruz, a afirmação ou negação, o ganhar ou perder, a necessidade ou a abundância, não são definidores da auto-estima ou da dignidade, mas o que somos em Cristo Jesus. A condição de filhos e filhas amados do Pai eterno, que a cruz conquistou a nosso favor, determina nosso novo estado. Neste contexto, a auto-estima não deve ser sustentada sob aquilo que pensamos a nosso respeito, nem mesmo sob aquilo que os outros pensam sobre nós, mas sob o que Deus pensa através da obra de Cristo na cruz por nós.
O dilema da auto-estima no mundo moderno é intensificado pela agenda que a cultura que nos cerca impõe sobre nós. Temos sido constantemente intimidados por falsos conceitos de valor e reconhecimento que nos oprimem.

Freqüentemente encontro pessoas cristãs com uma estima baixa, com um senso de valor inadequado, porque são prisioneiras do juízo que o mundo faz delas. Diante da tirania da propaganda, essas pessoas não se acham bonitas, inteligentes, bem sucedidas, reconhecidas ou amadas porque o modelo cultural é falso e impõe uma falsa compreensão de nós e do mundo.
O visão de Isaías sobre Cristo nos ajuda a inverter tal juízo. Isaías declara que ele era "desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de dores e experimentado no sofrimento. Como alguém de quem os homens escondem o rosto, foi desprezado, e nós não o tínhamos em estima". O mundo não deu a ele nenhum valor, não tinha por ele nenhuma estima - muito pelo contrário, o desprezou e rejeitou. Ele era o fraco e o humilhado, mas no final, o mundo foi julgado por ele e não ele pelo mundo.

O valor que Jesus tinha de si mesmo não foi determinado pela cultura que o cercava, nem mesmo pela falta de reconhecimento ou pelas falsas expectativas que as pessoas tinham dele. Seu valor pessoal esteve sempre sustentado pelo amor com que era amado pelo Pai.
Uma compreensão adequada da cruz de Cristo e sua implicação sobre a vida e o discipulado cristão é o ponto de partida para a construção de uma estima real e verdadeira. Tomar a cruz e seguir a Cristo dia após dia, negando o pecado, renunciando nossas ambições mesquinhas, amando a Deus de coração e alma, doando-nos ao próximo com compaixão e solidariedade, nos levará a amar corretamente a nós mesmos. O reconhecimento de quem somos e a valorização da pessoa passam, inevitavelmente, pelo Calvário.

Ricardo Barbosa

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O Mais Fascinante Projeto de Vida

Jesus dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia após dia tome a sua cruz e siga-me."

Jesus Cristo nos chama a segui-lo.

Tal convite não pode ser respondido com um mero levantar de mão em cruzadas evangelísticas. Falo como evangelista acostumado a este fenômeno: milhares de mãos se levantando, respondendo sim ao apelo de seguir Jesus. Na realidade, pode ser que o gesto seja o primeiro de uma sucessão benéfica que inclua: apertar a mão de irmãos, lavar os pés dos santos, enxugar lágrimas a aflitos, dar água e pão aos pobres, curar as feridas dos flagelados, impor as mãos sobre os doentes ou uni-las em oração e prece. Se este for o processo, então aquele gesto foi válido. No entanto, se não propiciar tal fluxo de vida e sucessão de atos, não passou de coreografia de trabalho religioso, ilusão para os servos da idolatria estatística e fantasia para os que pretendem povoar o céu a partir da graça barata.

Seguir Jesus não é ser modelado dentro do apertado terreno dos condicionamentos psicológicos, culturais e religiosos dos nossos guetos evangélicos. Entre nós a conversão é muitas vezes um fenômeno de mimetismo, não o nascer de uma nova criatura. A conversão não é, na nossa superficial e freqüentemente hipócrita cultura evangélica, a assimilação de chavões, palavras, gestos feitos, tom de voz e indumentária própria. Não tenho medo de ser julgado. O que disse está dito, pois conheço a igreja de Cristo no Brasil e sei que ela precisa ser liberta da religiosidade que por vezes Jesus odiou e reprovou Discipulado também não é apenas vida moral e social ajustada. Pagar as contas em dia, lavar o carro todo sábado, levar os filhos ao parque, sair para jantar uma vez por semana com a esposa, ser bom vizinho e ótimo profissional não é tudo sobre discipulado. Esta vida certinha ainda está dentro do ordinário. O discipulado está no nível do extraordinário.

Seguir Jesus extrapola os melhores hábitos. É ir tão mais além que desajuste os certinhos e desinstale os irremovíveis e plantados no seguro terreno da vida acomodada. Discipulado é vida para nômades. É existência para aqueles que confessam que todo país estrangeiro pode ser sua pátria e que o planeta Terra não é seu lugar de repouso, porque aspiram à Pátria Superior. Ser discípulo é ter tanto a disciplina quanto a criatividade das ondas do mar. Disciplina porque as ondas são ordenadas e têm princípios. Criatividade, porque elas existem dentro de uma dinâmica: cada onda é diferente da outra.

Neste sentido, seguir Jesus é obedecer a princípios imutáveis, mas é também ser livre como as ondas do mar. Um discípulo, ao mesmo tempo que vive obediente a Deus, descobre a pessoa dinâmica que deve ser, conforme a expressão da sua inerente potencialidade e mediante os variados dons espirituais que a graça de Deus acrescenta à vida de cada cristão.

Em razão das afirmações anteriores e de muitas outras ainda não apresentadas é que Jesus diz que o discípulo é um ser livre.

Cristo não esmaga a cana quebrada e nem apaga a torcida que fumega.

Ele não violenta o coração.

Não faz apelos emocionalmente irresistíveis. Não coage a alma humana. Não faz lavagem cerebral.

Seu convite ao discipulado começa com um "se alguém quer".

O discípulo tem que saber o que quer, porque dele é exigido que abra mão de valores, a fim de se apoderar do Reino de Deus:

"O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem, e compra aquele campo."

Caio Fabio

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O GRANDE PECADO - C.S. Lewis

Extraído de "Cristianismo Puro e Simples"

Chego agora à parte em que a moral cristã difere mais nitidamente de todas as outras morais. Existe um ví­cio do qual homem algum está livre, que causa repug­nância quando é notado nos outros, mas do qual, com a exceção dos cristãos, ninguém se acha culpado. Já ouvi quem admitisse ser mau humorado, ou não ser capaz de resistir a um rabo de saia ou à bebida, ou mesmo ser covarde. Mas acho que nunca ouvi um não-cristão se acusar desse vício. Ao mesmo tempo, é raríssimo encon­trar um não-cristão que tenha alguma tolerância com esse vício nas outras pessoas. Não existe nenhum outro defeito que torne alguém tão impopular, e mesmo as­sim não existe defeito mais difícil de ser detectado em nós mesmos. Quanto mais o temos, menos gostamos de vê-lo nos outros.

O vício de que estou falando é o orgulho ou a pre­sunção. A virtude oposta a ele, na moral cristã, é cha­mada de humildade. Você deve se lembrar de que, quan­do falávamos sobre a moralidade sexual, adverti que não era ela o centro da moral cristã. Bem, agora chegamos ao centro. De acordo com os mestres cristãos, o vício fun­damental, o mal supremo, é o orgulho. A devassidão, a ira, a cobiça, a embriaguez e tudo o mais não passam de ninharias comparadas com ele. E por causa do orgulho que o diabo se tornou o que é. O orgulho leva a todos os outros vícios; é o estado mental mais oposto a Deus que existe.

Parece que estou exagerando? Se você acha que sim, pense um pouco mais no assunto. Agora há pouco, ob­servei que, quanto mais orgulho uma pessoa tem, me­nos gosta de vê-lo nos outros. Se quer descobrir quão orgulhoso você é, a maneira mais fácil é perguntar-se: "Quanto me desagrada que os outros me tratem como inferior, ou não notem minha presença, ou interfiram nos meus negócios, ou me tratem com condescendência, ou se exibam na minha frente?" A questão é que o or­gulho de cada um está em competição direta com o orgu­lho de todos os outros. Se me sinto incomodado por­que outra pessoa fez mais sucesso na festa, é porque eu mesmo queria ser o grande sucesso. Dois bicudos não se beijam.

O que quero deixar claro é que o orgulho é es­sencialmente competitivo — por sua própria natureza -, ao passo que os outros vícios só o são acidentalmente, por assim dizer. O prazer do orgulho não está em se ter algo, mas somente em se ter mais que a pessoa ao lado. Dizemos que uma pessoa é orgulhosa por ser rica, inte­ligente ou bonita, mas isso não é verdade. As pessoas são orgulhosas por serem mais ricas, mais inteligentes e mais bonitas que as outras. Se todos fossem igualmente ri­cos, inteligentes e bonitos, não haveria do que se orgu­lhar. É a comparação que torna uma pessoa orgulhosa: o prazer de estar acima do restante dos seres. Eliminado o elemento de competição, o orgulho se vai. E por isso que eu disse que o orgulho é essencialmente competitivo de uma forma que os outros vícios não são. O impulso sexual pode levar dois homens a competir se ambos es­tão interessados na mesma moça. Mas a competição ali é acidental; eles poderiam, com a mesma facilidade, ter se interessado por moças diferentes. Um homem orgu­lhoso, porém, fará questão de tomar a sua garota, não por desejá-la, mas para provar para si mesmo que é me­lhor do que você. A cobiça pode levar os homens a com­petir entre si se não existe o suficiente para todos; mas o homem orgulhoso, mesmo que tenha mais do que ja­mais poderia precisar, vai tentar acumular mais ainda só para afirmar seu poder. Praticamente todos os males no mundo que as pessoas julgam ser causados pela cobi­ça ou pelo egoísmo são bem mais o resultado do orgulho. Veja a questão do dinheiro. A cobiça pode fazer com que o homem deseje ganhar dinheiro para comprar uma casa melhor, poder viajar nas férias e ter coisas mais apetitosas para comer e beber. Mas só até certo ponto. O que faz com que um homem que ganha 10.000 li­bras por ano fique ansioso para ganhar 20.000 libras? Não é a cobiça de mais prazer. A soma de 10.000 libras pode sustentar todos os luxos de que ele queira desfrutar. E o orgulho — o desejo de ser mais rico que os outros ricos e, mais do que isso, o desejo de poder. Pois, evi­dentemente, é do poder que o orgulho realmente gos­ta: nada faz o homem sentir-se tão superior aos outros quanto o fato de poder movê-los como soldadinhos de brinquedo. Por que uma moça bonita à caça de admi­radores espalha a infelicidade por onde quer que vá? Cer­tamente não é por causa de seu instinto sexual: esse tipo de moça é quase sempre sexualmente frígida. É o orgulho. O que faz um líder político ou uma nação inteira quererem expandir-se indefinidamente, exigindo tudo para si? De novo, o orgulho. Ele é competitivo pela pró­pria natureza: é por isso que se expande indefinidamen­te. Se sou um homem orgulhoso, enquanto existir al­guém mais poderoso do que eu, ou mais rico, ou mais es­perto, esse será meu rival e meu inimigo.

Os cristãos estão com a razão: o orgulho é a causa principal da infelicidade em todas as nações e em todas as famílias desde que o mundo foi criado. Os outros ví­cios podem, às vezes, até mesmo congregar as pessoas: pode haver uma boa camaradagem, risos e piadas entre gente bêbada ou entre devassos. O orgulho, porém, sem­pre significa a inimizade - é a inimizade. E não só ini­mizade entre os homens, mas também entre o homem e Deus

A EXPERIÊNCIA DO GETSÊMANE

A EXPERIÊNCIA DO GETSÊMANE – É exclusivamente através das aflições que te tornas completo e a alegria mais pura que venhas a sentir é o reflexo do Espírito Santo operando na tua alma. Não quero que penses que uma vida normal de fé seja de um contínuo e ininterrupto contentamento. Eu Me manifestarei a ti, quer nas tuas horas difíceis, quer nos momentos felizes. Nunca te pedi que busques a felicidade como um fim em si mesma. Meu Espírito Se move dentro de ti para reproduzir o caráter do Senhor Jesus Cristo a fim de que a tua personalidade inteira traga a semelhança do novo homem. Este processo é penoso, muitas vezes, porque ele requer a renúncia da vontade e das escolhas pessoais. Eis a razão porque o Senhor Jesus Cristo suou gotas de sangue na hora da Sua agonia no Jardim de Getsêmane.

A mente natural não pode penetrar a luta íntima da alma enquanto se processa nela a renúncia da vontade humana para a aceitação da Vontade divina. Aquilo que a Escritura revela sobre o sofrimento e a paixão do Senhor Jesus é, na verdade, uma revelação EM PROFUNDIDADE da luta mortal que cada alma sente quando renuncia a sua vontade e aceita a Vontade de Deus.

Frances J. Roberts

terça-feira, 6 de julho de 2010

A ambição do cristão

A ambição do cristão (6:19-34)

O "mundanismo" do qual os cristãos devem fugir pode ter apa­rência religiosa ou secular. Por isso, devemos ser diferentes dos não-cristãos, não apenas em nossas devoções, mas também em nossas ambições. Cristo modifica especialmente a nossa atitude para com a riqueza e os bens materiais. É impossível adorar a Deus e ao dinheiro; temos de escolher um dos dois. As pessoas do mundo estão preocupadas com a busca do alimento, da bebida e do vestuário. Os cristãos devem ficar livres destas ansie­dades materiais ego-centralizadas e, em lugar disso, devem dedicar-se à expansão do governo e da justiça de Deus. É o mes­mo que dizer que a nossa ambição suprema deve ser a glória de Deus e não a nossa própria glória, nem mesmo o nosso próprio bem-estar material. É uma questão do que buscamos "em pri­meiro lugar".

JOHN R. W. STOTT

segunda-feira, 5 de julho de 2010

OLHA PROFUNDAMENTE

Servo meu, olha profundamente dentro do teu coração e muito te será revelado. Estás insensível para ouvir, já tendo ouvido tanto? Tenho outros meios de conduzir-te. Muitas coisas se tornarão evidentes, quando olhares para o recôndito do teu coração. Aí está um celeiro de esclarecimentos. Não temas que haja um reservatório profundo de Vida divina dentro da tua vida, porque Eu passei a habitar nela.

Eu te ensinei por símbolos enquanto aprendes a ver através do Espírito. Descobrirás muitos tesouros que têm sido armazenados, esquecidos e ainda aguardando ser recuperados.

Rejeita as tradições. Tu as tens desdenhado, mas ainda consentes escravizar-te a algumas delas. Expulsa o cativeiro na tua vida. O escravo não herdará como o livre. O teu espírito precisa de liberdade para a sua expansão. Não o impeça.

Frances J. Roberts

domingo, 4 de julho de 2010

Unidade Cristã

A verdadeira unidade vem da intimidade com o Pai. Conforme andamos em comunhão com Ele, sentimos o Seu coração. começamos a compreender Seus sentimentos e desejos. Passamos a conhecer Seu amor por cada um de Seus filhos. O resultado de tal comunhão intima é que seremos capazes de ter unidade uns com os outros.

A verdadeira unidade é a prova real da nossa maturidade espiritual - Se somos capazes de amar os irmãos. Este amor não será apenas com aqueles que concordam conosco e convivem conosco, mas com todos.

Este amor será manifesto até mesmo por aqueles que discordam de nós ou até mesmo os que nos odeiam. A intimidade com Deus manifesta na maturidade cristã, é o unico fator que pode produzir a verdadeira unidade.

(trecho do livro que acabei de ler)

Deixe o meu povo ir (A unica Igreja verdadeira)
Autor: David W. Dyer
ORAÇÃO E DESEJOS

Se não me engano, foi Santo Agostinho que disse que "nosso contínuo desejo é nossa contínua oração". Parece-me que foi ele também que disse que se queremos conhecer uma pessoa, não devemos perguntar a ela o que faz, e sim, o que mais ama. Para ele, são os afetos, ou os desejos, que definem nossa identidade, e não nossa funcionalidade.

A cultura moderna, por outro lado, permanece perguntando pelo que fazemos. O que fazemos, o que temos, é o que define quem somos. Somos seres funcionais - uma expressão da moda, do estilo ou do poder. A profissão, o status, a função, precedem a pessoa. Passamos a vida lutando para conquistar um lugar, uma posição, um padrão que nos garanta o respeito, a dignidade e o reconhecimento.

No entanto, ao perguntar pelo que amamos, Agostinho coloca os afetos e os desejos no centro de nossa identidade, resgatando o significado da pessoa como um ser relacional, e não, funcional. Noutras palavras, somos o que desejamos, um reflexo daquilo que amamos.

O problema é que nossos desejos são, muitas vezes, desordenados, confusos e pervertidos. Não apenas nossos desejos, mas também os desejos produzidos pela cultura que nos envolve; todos trazem consigo os sinais da corrupção, da queda e do pecado. Logo, nossos desejos e afetos precisam também de conversão.

Julia Gatta, escrevendo sobre o pensamento de Walter Hilton, místico cristão que viveu na Inglaterra no século 14 e foi quem trabalhou arduamente o tema da conversão das emoções e dos afetos, afirma: "A totalidade do ser está envolvida no processo de união com Cristo. Tanto nossa mente como nossos sentimentos precisam caminhar em direção à conversão, à progressiva purificação e, finalmente, à transformação. A renovação intelectual, se não é mais fácil, no mínimo é um assunto relativamente mais simples, comparado com a redenção da afetividade. A emoção, especialmente a emoção religiosa, é um fenômeno complexo. O fruto do Espírito não pode ser igualado a um simples 'sentir-se bem'. Como em todos os outros aspectos da natureza humana, a afetividade precisa ser interpretada, disciplinada e, finalmente, redimida".

O propósito da oração, entre outros, é nos levar a um profundo mergulho em nossos desejos e afetos. Se de um lado temos convicções convertidas, que foram transformadas pelo poder da Palavra de Deus e do Espírito, por outro lado temos também emoções e sentimentos cujas expectativas nem sempre correspondem às expectativas de nossas convicções. É bem possível que a procura por um equilíbrio espiritual entre razão e emoção não passe necessariamente por um intercâmbio entre o que é racional e o que é emocional, mas por uma conversão de ambos. Infelizmente, temos procurado promover tal equilíbrio simplesmente dando oportunidades para que ambos se manifestem em nossas experiências.

Não creio que o caminho mais saudável seja este, mas aquele recomendado por Jonathan Edward, puritano do século 18 que escreveu o clássico tratado Religious affections, demonstrando que a experiência cristã não deve ser determinada nem pelo conhecimento científico da verdade, nem pelas emoções das experiências religiosas, mas pelos afetos transformados pelo conhecimento da verdade e pela experiência religiosa.

Muitas expectativas espirituais que anelamos ou buscamos nascem das deformações do nosso caráter e desejos que o pecado criou. Não me refiro apenas ao pecado como agente deformador do nosso caráter pessoal, mas também ao pecado como agente deformador da sociedade e seus valores. Muitas vezes buscamos sensações espirituais que nascem não de um desejo sincero por Deus, sua Palavra, Reino, justiça e amor; mas para satisfazer sentimentos egoístas que nascem de emoções não transformadas. Somos constantemente assaltados por sentimentos de medo, insegurança, rejeição, abandono, necessidade de afirmação, reconhecimento, aceitação. Tudo isto determina as experiências que buscamos e o rumo que damos ao conhecimento que adquirimos. Desejos desordenados promovem experiências também desordenadas e, finalmente, falsas.

É isto que Tiago afirma em sua carta, quando diz: "De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne? Cobiçais e nada tendes; matais e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis; pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres." Para Tiago, a oração nasce dos desejos, mas uma vez que nossos desejos encontram-se confusos e desordenados, as orações também acabam sendo frutos desta desordem. Ele afirma que oramos mas não temos nada porque nossas orações e súplicas nascem de nossas vaidades.

George McDonald certa vez orou assim: "Senhor, minhas orações nascem daquilo que eu não sou; espero que tuas respostas façam de mim o que de fato devo ser." Ele reconhecia que suas orações nasciam do seu medo, da sua insegurança, da necessidade de afirmação ou reconhecimento - mas também sabia que por meio dela, seus desejos poderiam ser transformados.

Tanto a razão como os desejos precisam experimentar a conversão. A primeira, por ser mais objetiva, é aparentemente mais simples. A segunda, por sua subjetividade, é mais complexa. Há muitas pessoas hoje orando pela guerra, não pela paz, mas pela guerra, para que um país se mostre mais poderoso que o outro, vença e humilhe o outro. Tiago pergunta: "De onde nasce este desejo?" Nasce de emoções não convertidas, de vaidades e medos que ainda dominam as almas de muitos cristãos. Nossas orações são um reflexo dos nossos desejos, dos nossos anseios mais íntimos e verdadeiros.

Precisamos deixar Jesus nos perguntar mais uma vez: "O que queres que eu te faça?" E aí, ao sondar nossos corações, iremos buscar aquilo que é mais nobre, mais glorioso e eterno. Oraremos pela paz, pela negação do poder e para que os homens aprendam a amar, dividir e servir uns aos outros.
Ricardo Barbosa