quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O NOVO ATEU

O NOVO ATEU

Sabemos que existem vários tipos de ateus. Existem aqueles que não crêem em Deus por não encontrarem respostas para os grandes dilemas da humanidade como violência, miséria e sofrimento. Não conseguem relacionar um Deus de amor com o sofrimento humano. Outros não crêem porque não encontram uma razão lógica e racional que explique os mistérios da fé, como a criação do mundo, o dilúvio, o nascimento virginal, a ressurreição, céu, inferno etc. Diante de temas tão complexos que requerem fé num Deus pessoal, Criador e Redentor, muitos não conseguem crer naquilo que lhes parece racionalmente absurdo.

Os dois tipos de ateus já mencionados são inofensivos. Na verdade, são pessoas que buscam respostas, são honestos e não aceitam qualquer argumento barato como justificativa para suas grandes dúvidas. São sinceros e lutam contra uma incredulidade que os consome, uma falta de fé que nunca encontra resposta para os grandes mistérios da vida e de Deus.

No entanto há um outro tipo de ateu, mais dissimulado, que cresce entre nós, que crê em Deus e não apresenta nenhuma dúvida quanto aos mistérios da fé, nem em relação aos grandes temas existenciais. Ele vai à igreja, canta, ora e chega até a contribuir. É religioso e gosta de conversar sobre os temas da religião. Contudo, a relevância de Cristo, sua morte e ressurreição para a vida e a devoção pessoal é praticamente nula. São ateus crédulos. O ateu moderno não é mais somente aquele que não crê, mas aquele para quem Deus não é relevante.

Este é um novo quadro que começa a ser pintado nas igrejas cristãs. Saem de cena os grandes heróis e mártires da fé do passado e entram os apáticos e acomodados cristãos modernos. Aqueles cristãos que entregaram suas vidas à causa do Evangelho, que deixaram-se consumir de paixão e zelo pela Igreja de Cristo, que viveram com integridade e honraram o chamado e a vocação que receberam do Senhor, que sofreram e morreram por causa de sua fé, convicções e amor a Cristo, fazem parte de uma lembrança remota que às vezes chega a nos inspirar.

Os cristãos modernos crêem como os outros creram, mas não se entregam como se entregaram. Partilham das mesmas convicções, recitam o mesmo credo, freqüentam as mesmas igrejas, cantam os mesmos hinos e lêem a mesma Bíblia, mas o efeito é tragicamente diferente. É raro hoje encontrar alguém em cujo coração arde o desejo de ver um amigo, parente, colega de trabalho ou escola convertendo-se a Cristo e sendo salvo da condenação eterna. Os desejos, quando muito, se limitam a visitar uma igreja, buscar uma "bênção", receber uma oração; mas a conversão a Cristo, o discipulado com todas as suas implicações, são coisa que não nos atraem mais.

Os anseios pela volta de Cristo, o desejo de nos encontrarmos com ele e ver restaurada a justiça e a ordem da criação ficaram para trás. Somente alguns saudosos dos velhos tempos lembram-se ainda dos hinos que enchiam de esperança o coração dos que aguardavam a manifestação do Reino. A preocupação com a moral e a ética, com o bom testemunho, com a vida santa e reta não nos perturba mais - somos modernos, aprendemos a respeitar o espaço dos outros. O cuidado com os irmãos, o zelo para que andem nos caminhos do Senhor, as exortações, repreensões e correções não fazem parte do elenco de nossas preocupações. Afinal, cada um é grande e sabe o que faz.

Enfim, somos ateus modernos, o pior tipo de ateu que já apareceu. Citamos com convicção o Credo Apostólico, mas o que cremos não tem nenhuma relevância com a forma como vivemos. A pessoa de Cristo para muitos é apenas mais uma grife religiosa, não uma pessoa que nos chama para segui-lo. O ateísmo moderno se caracteriza pela irrelevância da fé, das convicções, do significado da igreja e da comunhão dos santos.

A irrelevância de Deus para a vida moderna é intensificada pela cultura tecnocrática. Temos técnicas para tudo: para ter um matrimônio perfeito, criar filhos felizes e obedientes, obter plena satisfação sexual no casamento, passos para uma oração eficaz, como conseguir a plenitude do Espírito Santo e muitos outros "como fazer" que entopem as prateleiras das livrarias e o cardápio dos congressos. A sociedade moderna vem criando os métodos e as técnicas que reduzem nossa necessidade de Deus, a dependência dele e a relevância da comunhão com ele. Chamamos uma boa música de adoração, um convívio agradável de comunhão, uma moral sadia de santificação, assiduidade nos programas da igreja de compromisso com o Reino de Deus.

As técnicas não apenas criam atalhos para os caminhos complexos da vida, como procuram inverter os pólos de atenção e dependência. Tornamo-nos mais dependentes de nós do que de Deus, acreditamos mais na eficiência do que na graça, buscamos mais a competência do que a unção, cremos mais na propaganda do que no poder do Evangelho. Tenho ouvido falar de igrejas que são orientadas por profissionais de planejamento estratégico. Estudam o perfil da comunidade, planejam seu desenvolvimento, arquitetam seu crescimento e, de repente, descobrem que funcionam, crescem, são eficientes, e não dependem de Deus para nada do que foi planejado. Com ou sem oração a igreja vai crescer, vai funcionar. Deus tornou-se irrelevante. Tornamo-nos ateus crentes.

A minha preocupação não é simplesmente criticar o mundo religioso abstrato, superficial e impessoal que criamos ou criticar a tecnologia moderna que, sem dúvida, pode e tem nos ajudado. Minha preocupação é com o coração cada vez mais distante, mais abstrato, mais centralizado naquilo que não é Deus, mais dependente das propagandas e estímulos religiosos, mais interessado no consumo espiritual do que numa relação pessoal com Deus.

Como disse, o ateu hoje não é mais aquele que não crê, mas aquele que não encontra relevância para Deus na sua rotina, não precisa da comunhão dele para a vida. A sutileza do novo ateísmo é que ele não precisa negar a fé, apenas cria substitutos para ela. Mantém o crente na igreja, mas longe do seu Salvador. Este ateu está muito mais presente entre nós do que imaginamos.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

MISERÁVEL HOMEM QUE SOU

MISERÁVEL HOMEM QUE SOU

Recentemente, num retiro de nossa igreja, estava ouvindo o conselheiro Werner Haeuser, nosso convidado para aquele encontro, que naquela manhã trazia uma meditação sobre Elias e a grande crise pessoal que viveu depois de ter experimentado uma extraordinária vitória. [N. da redação: Werner Haeuser foi o entrevistado de ECLÉSIA na edição do mês passado]. A meditação de Werner enfocava o problema da vitimação, desta tendência comum do ser humano de fazer-se vítima, de sentir-se acuado pelo mundo, de achar que é o único que sofre, que todos estão conspirando contra ele.

No meio de sua fala, o conselheiro trouxe uma afirmação que me fez perder um pouco a concentração do seu discurso e ater-me mais a esta frase. Disse ele: "O crescimento pessoal começa quando o culpar o outro termina". Comecei a me lembrar das inúmeras justificativas que tenho criado para me justificar dos meus erros e absolver a mim mesmo das minhas responsabilidades. Lembrei das incontáveis vezes em que culpei o governo para justificar da minha apatia social; das muitas vezes que culpei minha esposa e filhos para me absolver do meu egoísmo e insensiblidade e das vezes que culpei irmãos e irmãs para me poupar do incômodo de reconhecer minha incapacidade de amar e perdoar.

Todas as vezes que fiz isso, perdi a oportunidade de crescer, amadurecer e dar um passo a mais na formação do meu caráter. Era apenas mais uma vítima dos erros e pecados dos outros. É uma fórmula comum, bastante usada e que tem lá a sua eficiência. Mas esconde um grande perigo: A paralisia moral.

O que está em questão não é esconder a realidade nem fechar os olhos para os problemas políticos, sociais, familiares ou eclesiásticos. O que se propõe é a necessidade de olharmos com mais coragem e honestidade para nós mesmos, de sermos capazes de assumir os próprios erros e enfrentarmos o pecado com humildade e transparência. É aqui que começamos a dar os primeiros passos em direção a uma maturidade saudável.

O apóstolo Paulo foi uma destas pessoas que resistiu à tentação da vitimação ao afirmar: "Miserável homem que sou." Ele não culpa os outros pela sua incapacidade de não fazer o bem que sabe que deveria fazer. Ele sabe o que é certo, consegue discernir o bem do mal, sabe o que é melhor para ele e os outros, mas mesmo assim, nem sempre consegue optar por aquilo que é verdadeiro, justo e bom. No entanto, mesmo vivendo este dilema, ele não coloca a culpa dos seus erros e pecados no governo, na igreja, na família ou nos outros. Corajosamente - e responsavelmente -, olha para si e reconhece que o problema está nele, no seu pecado, na sua desobediência. Esta postura abre as portas para um processo de crescimento e transformação.

Ao fazer tal afirmação, Paulo não se torna vítima, mas protagonista. A responsabilidade é dele, não dos outros. Esta é a diferença. Paulo não responsabiliza os outros pelas escolhas erradas que fez, pelas oportunidades que deixou escapar, pela formação que deixou de obter, pela influência nociva que sofreu. O cenário principal do seu conflito não era externo, mas interno. A luta entre fazer o bem que conhecia e desejava e se deixar levar pelo mal que não desejava era uma luta da sua alma e Paulo a enfrentou com honestidade e coragem.

Conheço muitas pessoas que gostariam de ver menos televisão e dedicar-se mais à leitura, meditação e oração, mas não conseguem; de trabalhar menos e dispor de mais tempo para a família, amigos e lazer, mas sempre sobra mais trabalho do que tempo; de convidar mais os amigos para sair ou jantar em casa, conversar, mas sempre surge algo mais importante e inadiável para fazer. Sabemos que há mais prazer em cultivar relacionamentos honestos e verdadeiros, em conversar antes de julgar, ouvir antes de falar, servir antes de ser servido, ajudar ao invés de reclamar; mas normalmente nossos relacionamentos não são honestos, julgamos o que não conhecemos, buscamos ser servidos e não servir e, freqüentemente, reclamamos e não ajudamos. Sabemos o quanto é bom lembrar do aniversário de algum amigo, mas não lembramos; que devemos ser mais tolerantes com os erros dos outros, mas não somos; que é bom doar algo que nos é caro, mas não doamos. Diante da inércia e dificuldades internas, da própria alma, responsabilizamos o chefe pela falta de tempo, a correria da vida moderna pela aridez da oração, os inúmeros compromissos pela falta de amizade, e por aí vai. Afinal, não somos nós - são os outros.

O problema que nos difere de Paulo é que não sabemos reconhecer este grande e grave pecado que nos acompanha sempre. Pessoalmente, nunca ouvi ninguém reconhecer o quanto é miserável e concluir dizendo: "Quem me livrará desta morte?" Achamos mais fácil nos justificar nos erros dos outros do que assumir nosso próprio pecado. C. S. Lewis dizia que as pessoas mais ocupadas são na verdade as mais preguiçosas, porque sempre deixam que outros decidam o que devem fazer. É mais fácil viver assim porque também responsabilizamos os outros por tudo o que deixamos de fazer.

Penso que se todos nós, de forma corajosa e honesta, fizéssemos uma declaração como esta de Paulo e reconhecêssemos que somos nós que não fazemos o bem que conhecemos, que optamos pelo mal que não queremos, que o problema está em nós e não nos outros, que precisamos começar por nós um longo caminho de arrependimento e confissão e que necessitamos, desesperadamente, da graça de Deus para libertar nosso corpo deste processo fatal, que vem aniquilando nossos relacionamentos mais íntimos, minando nossas esperanças mais sadias e corrompendo as experiências mais santas e verdadeiras, certamente viveríamos melhor, teríamos famílias mais saudáveis e uma igreja mais madura e acolhedora.

"Miserável homem que sou." É duro reconhecer isto, mas este é o ponto de partida para a vida e a comunhão. É o princípio onde aprendemos que a vida começa em Deus e a comunhão é construída numa dependência constante e sincera dele. Fazendo isto, olharemos para nós antes de olhar para os outros. Estenderemos nossas mãos antes de exigir que alguém estenda as suas para nós. Nos doaremos aos outros antes mesmo que se doem a nós. Cresceremos porque evitaremos culpar os outros pelos nossos erros e pecados.

Que Deus tenha misericórdia de nós.